Em tempo de Copa…

Copas do Mundo em Cartaz na revista ARC DESIGN

MATÉRIA DE JAIR DE SOUZA PUBLICADA NA EDIÇÃO Nº 69 / MARÇO 2010

Durante mais de 100 anos o cartaz foi o suporte que melhor sintetizou as tendências artísticas da criação gráfica mundial. A partir do ano 2000 isso começa a mudar quando a tecnologia e a internet abrem um novíssimo campo de divulgação e experimentação. Outras formas de comunicação artística surgem.

O cartaz do papel está em crise por essas e pelas razões de sempre: falta de espaço patológica, pois sempre foi visto como obra marginal e também por causa do controle cada vez maior dos espaços públicos pela propaganda e governos submissos ou sem imaginação.

Mas o cartaz, como grande representação sintética de uma ideia ou de um projeto, não morreu. O cartaz está aí para representar em uma imagem toda uma história de significados, no papel ou nos cartazes eletrônicos das mídias digitais.

Enfim, o espaço aqui é para falar dos cartazes da copa. Gostaria de dividir com vocês minhas observações e contextualizações, mas de qualquer maneira tenho que adiantar que não vi nesses cartazes as melhores representações gráficas e artísticas de suas épocas. Muito pelo contrário, salvo duas ou três exceções. São cartazes sem autoria.

Daqui a quatro anos será nossa a vez.

Este artigo pode ser encontrado na edição 69 da revista Arc Design. Faça o download aqui.

1930 – Uruguai

A exemplo dos jogos olímpicos, a FIFA inicia sua produção de cartazes logo na 1ª copa disputada no Uruguai, em um clima de guerra com a Argentina.

O cartaz, verticalíssimo, é uma obra característica do art decô, estilo gráfico dominante da época, mas realizada de maneira simples, sem a sofisticação dos célebres cartazes europeus do mesmo período.

O curioso é que, para um primeiro cartaz, a imagem símbolo é a do goleiro, único a pôr a mão na bola num esporte onde os pés são determinantes.

1934 – Itália

A Itália reflete neste pôster um certo rigor que reflete as idéias de força e progresso fascistas comandados por Mussolini. Vejo, na faixa em diagonal cruzando com o jogador, a formação de um X, como uma proibição velada e autoritária.

1938 – França

Esse cartaz que foi escolhido numa espécie de disputa entre 3 renomados artistas gráficos franceses, expressa claramente a tentação mundial diante da opressão totalitária nazi-facista.

O jogador parece um soldado com o pé na bola sobre o mundo vermelho (de sangue ou de comunismo?). De qualquer maneira, é um cartaz que anuncia, e flerta, numa composição dramática, com esse jogador soldado de costas para o arco-íris, da paz.

1950 – Brasil

1950 - Brasil

O pôster brasileiro, embora com mais movimento, ainda apresenta uma certa influência da violenta estética do pôster de 38. É, também, um pé na bola de maneira militarista, com perna sólida, pesada, formada pelas bandeiras. Nesse caso, ao invés do arco íris, temos o pão de açúcar ao fundo.

1954 – Suíça

1954 - Suíça

Enfim, a partir dessa copa, o mundo dá um basta definitivo em uma certa estética marcada pela brutalidade de inspiração nacional fascista.

Esse belo pôster suíço, quase primitivo, é o primeiro a valorizar o momento mais importante do futebol, o gol – visto através do olhar perplexo do goleiro – com simplicidade poética que retrata a cena dramática. Esse olhar do goleiro parece também o olhar de toda uma geração, passados 9 anos, ainda sem compreender a loucura que foi a Segunda Guerra.

1962 – Chile

1962 - Chile

Esse cartaz me parece preguiçoso no conceito e na formalização. Tentei entendê-lo e não deu. O que seria? A bola saindo da terra? A bola como um satélite da terra? Não seria melhor ter feito o contrário, a terra satelitezada pelo planeta bola de futebol?

1966 – Inglaterra

1966 - Inglaterra

É um cartaz limpo, bem diagramado mas com pouco impacto e sem uma ideia ou conceito especial, apenas colocando em cena o simpático leãozinho inglês, mascote da copa chutando a bola em direção ao título. Muito pouco para o excelente design inglês.

1970 – México

1970 - México

Considero esse o primeiro grande pôster das copas. Não digo o melhor, mas o primeiro a tomar uma posição clara, sem narratividade, simbolismo, ou metáfora visual, assumindo como grande símbolo apenas a bola como uma explosão de seus gomos, como forma perfeita e total.

Olhando fixamente para esse cartaz vejo também uma referência sutil aos cinco continentes representados pelo gomo central. Mas esse cartaz traz também outras preciosidades, como esse rosa desafiando suavemente esse esporte ainda eminentemente masculino, além de não fazer nenhuma menção nem ao gramado nem às cores do país-sede, o México. E, finalmente, a grande amarração do cartaz é sua maravilhosa tipografia MEXICO traduzindo tudo o que se imagina de esporte: movimento, emoção e beleza.

1974 – Alemanha

1974 - Alemanha

Esse cartaz me lembra as pinturas do Zaragoza, artista e diretor de arte. É uma pintura clássica, mas que traduz a força e a energia do futebol realçadas pelo fundo preto. Ainda assim, tem alguma coisa nele que me incomoda e me faz lembrar dos antigos cartazes violentos de antes da Segunda Guerra.

Também me incomoda ter uma espécie de máscara sinistra no lugar do rosto do jogador. A Alemanha tinha sediado, dois anos antes, as Olimpíadas com perfeição tecnológica e trágico desfecho com o atentado terrorista à delegação de Israel.

1978 – Argentina

1978 - Argentina

Esse é o cartaz da copa realizada durante a sanguinária ditadura militar na Argentina, que contabilizou 30.000 mortos, em sua maioria jovens. Essa também foi a copa em que a Argentina, através de seus militares, foi acusada de ter subornado a equipe peruana para perder por 6×0 e, dessa forma, tirar o Brasil da final.

Enfim, essa copa em que os militares, literalmente, jogaram pesado, realizou esse cartaz que a meu ver é um enorme ato falho gráfico, uma denúncia ao revés, mostrando um sujeito com as mãos para o alto, rendendo-se, sendo preso. Graficamente falando (e precisa?) o cartaz emprega a técnica pop em conjução com retículas ampliadas. De qualquer maneira, é difícil não ver um jovem sendo preso.

1982 – Espanha

1982 - Espanha

Uma obra de arte criada pelo artista catalão Joan Miró, um ano antes da sua morte.

Uma liberdade de pensamento que dá a volta nos simbolismos repetitivos utilizados por tantos designers e artistas gráficos. Uma importante opção dos espanhóis na construção de imagem daquele país, que dessa forma enfatizava para o mundo a vocação para a Arte da Espanha. Uma dádiva para o futebol.

1986 – México

1986 - México

Pela segunda vez, em apenas 16 anos, o México sedia uma copa do mundo em meio a uma série de indagações sobre as jogadas entre políticos e dirigentes da FIFA, na época comandada pelo brasileiro João Havelange.

O importante é que esse estranho cartaz de índole turístico-publicitária, erra no foco mostrando a sombra de uma figura olímpica (!) grega projetada nas colunas da civilização asteca. Uma confusão geral.

1990 – Itália

1990 - Itália

Esse cartaz medonho na sua esdrúxula e primária construção gráfica, me faz lembrar da Itália de Mussolini com sua estética e valores greco-romanos, gladiadores, violência, morte, circo e pão para o povo. Tá certo que o futebol é uma luta, mas não precisa exagerar.

Essa visão do futebol-força construída a partir da copa de 66 em oposição ao bicampeão futebol-arte brasileiro se reflete nessa arena, lugar de enfrentamento dos países com suas bandeiras.

1994 – Estados Unidos

1994 - Estados Unidos

Realizado em um país onde 80% da população não tinha a menor idéia do que era soccer (futebol, em americano), sinceramente esse cartaz me faz rir. Parece coisa de convenção do Partido Democrata norte-americano. Parece cartaz de encomenda onde cada cidade-sede tem que estar representada no mapa. Parece tudo, menos cartaz de futebol.

1998 – França

1998 - França

Esse cartaz da copa na França traz algumas marcas do grafismo francês, mas sem traduzir, pra valer, o que há de melhor por lá: as cores, a festa, a intervenção e tipografia manual e o experimentalismo gráfico. Mas, de qualquer forma, ele tem alma, personalidade e tenta traduzir o que de fato aconteceu durante a copa na França: uma festa do futebol.

2002 – Coreia

2002 - Coreia

Esse trabalho tenta transpor, para o formato do cartaz, os princípios gráficos da marca dessa copa, realizada pelos designers coreanos, combinando uma estética assimilável também pelos os chineses que dividiram com a Coreia a sede da competição: o gesto do artista e sua cultura, traduzindo o esporte através do movimento, da cor e da linguagem gráfica dessas duas culturas. Uma vontade de mostrar o futebol como arte, improviso e alegria.

Pode-se até achar primitivo, mas esse cartaz tem o mérito de tentar traduzir os valores que prezamos no futebol.

2006 – Alemanha

2006 – Alemanha

A copa de 2006 na Alemanha foi a consagração do futebol globalizado, com a Alemanha investindo na maior operação de nation branding já empreendida. A Alemanha deu um banho de receptividade, qualidade, conforto e alegria, desfazendo anos de péssima imagem criada pelo nazismo.

A marca dessa copa, que buscou traduzir esse clima de paz e congraçamento de culturas e etnias, foi transposta para o cartaz de maneira fria e cerebral com um acabamento gráfico sem a sofisticação do design alemão. O conceito traduz e alarga a pegada geral, levando o futebol literalmente para o espaço cósmico, mais do que global, sideral. Tudo bem a bola ser formada por estrelas/diamantes, mas ficou muito distante de toda a comunicação visual produzida e do clima positivo vivido nas ruas.

2010 – África do Sul

2010 – África do Sul

O cartaz africano tem uma solução gráfica sintética, com conceito muito forte e significativo, podendo claramente ser compreendido e admirado por todo o planeta.

A figura de um africano (no caso, o jogador Eto’o do Barcelona) de cabeça erguida, sonhando/admirando a bola de futebol sob fundo amarelo, consegue de fato transcender a África do Sul, pais sede da copa, e representar, dessa maneira, com as cores de todos os países e formas variadas, a imensidão e emoção africana.

Esse lindo cartaz da copa de 2010 na África, eleito por voto popular pela internet, abre uma porta positiva para dias melhores. A FIFA acertou em cheio.

Fonte: http://jairdesouzadesign.com/blog/index.php/2010/05/12/copas-do-mundo-em-cartaz-2/

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